Supere a reclamação e aprenda a expressar nossos desejos

Sergio Huguet. Psicólogo e psicoterapeuta

Reclamar é o combustível que alimenta muitos conflitos pessoais. Um dos segredos para a superação de experiências conflituosas é justamente deixar de viver na queixa e aprender a cuidar das reais necessidades que se escondem por trás dessa atitude.

A queixa lembra o choro infantil com que tentamos mover o mundo, nossa mãe, para cuidar de nós. É uma expressão natural e saudável de nossos sentimentos. Claro que sim. Mas a denúncia pode se transformar em comportamento prejudicial se já estiver instalada em nossas vidas na idade adulta.

Porque toda reclamação contém em si mesma uma necessidade não expressa que permanece implícita e é o destinatário da reclamação que se encarrega de descobrir e atender essa necessidade. Dessa forma, nos tornamos seres dependentes e impotentes que buscam ser confortados pelas armas do mundo.

Continuar a manter essas atitudes infantis como adulto e nos ancorar nessas formas arcaicas de enfrentamento tem consequências importantes. Por exemplo, é muito provável que antagonizemos as pessoas que ouvem nossa reclamação e descubram sua recusa ou que retirem seu apoio.

Experimentar a frustração, seja pela perda de algo ou alguém importante para nós, seja por não termos alcançado um propósito ou desejo almejado, é normal e faz parte da experiência de viver. O problema é como vivemos isso, a forma particular de enfrentamento que usamos em tal situação, a maneira particular que escolhemos para expressar nossos sentimentos e nossas necessidades.

A reclamação é inata

Você sabe qual é o primeiro comportamento de auto-sustento, o primeiro ato de auto-ajuda em nossa vida? Quando tentamos fazer com que alguém, provavelmente nossa mãe, cuidasse de nós. E fizemos isso por meio de um mecanismo extraordinário que a natureza colocou em nossas mãos: o choro.

O provérbio popular o conhece perfeitamente e por isso nos adverte: “Quem não chora não amamenta”.

Geralmente, para uma criança que está nos primeiros estágios da vida, o mundo funciona de acordo com duas premissas básicas relacionadas ao seu bem-estar. O primeiro, alguém fez algo que causou minha frustração; a segunda, alguém parou de fazer algo que eu esperava e é por isso que me sinto mal.

Tendo estabelecido ambas as premissas, você chega a uma conclusão óbvia: alguém vai ter que fazer algo para parar essa frustração; para recuperar o meu bem-estar tenho que “tocar a campainha”, chorar, e o mundo, minha mãe, vai colocar o seio dela na minha boca para me satisfazer, porque ela sempre sente empatia com esse meu grito e vem em meu auxílio.

Desta forma, o choro do bebê, aquela queixa primordial que todos nós lançamos assim que chegamos a este mundo, cumpre uma função fundamental: atrair a mãe em busca de alimento, carinho, proteção; chamar a atenção deles para satisfazer aqueles aspectos que o pequeno não consegue por si mesmo. Sua única responsabilidade, por enquanto, será apenas essa: chorar, reclamar. E dizemos por enquanto, porque assim será até que chegue o dia em que tenha os recursos adequados para lidar com a situação de outra forma.

Quando a mãe percebe que o choro do filho não é mais produto de falta de recursos, desamparo sincero ou dor transparente - por exemplo, quando pede para ser carregada nos braços quando já sabe andar -, ela não atende mais tão prontamente e empática como fazia meses atrás.

O que fazer se a reclamação se instala em nossa vida?

Nesse momento, alguém pode pensar que se a queixa for expressão de dor, arrependimento, soluços, etc …, todos nós, em determinadas circunstâncias, continuamos caminhando pela vida com o objetivo de sermos levados em vez de exercitar as pernas. Continuamos, em certos momentos - muito mais do que pensamos - tentando mobilizar quem está ao nosso redor para cuidar de nós.

Mas quando não assumimos a responsabilidade pela nossa experiência, mas a delegamos ao outro para nos ajudar - seja o companheiro, o patrão, a vida, Deus, a sorte, o destino, os pais … - tornamo-nos seres passivos que vivem relacionamentos e todas as experiências de uma forma unilateral, como uma criança: o outro dá ou cuida e eu recebo.

É importante que consigamos desenvolver comportamentos alternativos, novas formas de enfrentar as nossas necessidades que nos permitam uma expressão delas de forma mais responsável, saudável e madura.

Portanto, nesse tipo de situação, pergunte-se qual é a mensagem que você quer passar com a sua reclamação, qual é a necessidade que está oculta nessa forma de expressão.

Você precisa sentir mais demonstrações de afeto do seu parceiro? Em caso afirmativo, analise como você os informou: é uma expressão franca e aberta ou, talvez, uma recriminação, uma atitude de vitimização? Ao descobrir qual é a sua necessidade real, pergunte-se se deseja transmiti-la de forma clara e honesta.

Lembre-se de que essa atitude promove empatia e reaproximação, enquanto reclamar causa o contrário.

Aprender a pedir, em certos momentos, que precisamos ser carregados, longe de nos tornarmos filhos dependentes, nos transforma em adultos responsáveis ​​por nossas próprias necessidades. Ao mesmo tempo, o fato de mostrar uma atitude honesta, de expressar nossas necessidades autênticas, de assumir a responsabilidade por nossas vidas, nos dará algo que só nós, e ninguém mais, pode nos oferecer, uma forma mais madura de estar no mundo e de nos relacionarmos. com os demais.

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